Tinha as calças encharcadas da chuva que passava pelo chão. Chovia demais.
A Vera apareceu-me na faculdade. Trazia botins, com uns olhos grandes à frente. Galochas de sapo; e um chapéu de chuva transparente. Parecia-me bem. Faces rosadas do calor que fazia dentro do blusão de penas e as pernas frias, do vestido branco, curtinho.
Colo. Beijinhos. "Olá esta é a Vera!". Trouxe-me chocolates e bolos amassados dentro dos bolsos. As mãos estavam peganhentas do açúcar.
Ao meu colo, soou-me criminoso, não estares um momento que fosse, comigo. Mas soube, quando tiraste da mochila cor-de-rosa a carta que o Filipe te escrevera, na ânsia de ma mostrares, que muito em breve teria de te partilhar.
Achei uma atrocidade, até, que esta nossa unicidade pudesse algum dia perder-se, mas odeio bolos amassados. Soube então, que o dia de sermos duas, chegaria mais cedo do que aquilo que alguma vez previra ou desejara.
30.10.05
15.10.05
Intoxicação 5
Deixo-me às metades. Cá e lá.
E faz sentido lá, onde as pessoas andam porque têm onde ir e correm porque têm onde chegar.
Lisboa é francamente bonita. Embora toda a gente esteja demasiado embrenhada em si mesma para parar e rir de vez em quando.
Vêm de todo o lado e eu, vou.., sabe-se lá para onde.
Isto, pensei primeiro.
(Vejo a fonte luminosa, o aquário, as torres, e faço diagonais que não acabam. Ponho os óculos escuros; uma imperial, fumos, cadernos, civil, química, civil, química, civil. Café.
O 22 passou agora. Merda. Meia-hora.)
Depois, concluo que andamos todos à deriva e, talvez, eu seja só a mais descarada.
Juro, amanhã acordo cedo. Despertador às 8.00, mas para quê? Não como. Nunca respiro. Durmo, durmo, durmo, durmo.
Numa anestesia que me deixa mais feliz.
E faz sentido lá, onde as pessoas andam porque têm onde ir e correm porque têm onde chegar.
Lisboa é francamente bonita. Embora toda a gente esteja demasiado embrenhada em si mesma para parar e rir de vez em quando.
Vêm de todo o lado e eu, vou.., sabe-se lá para onde.
Isto, pensei primeiro.
(Vejo a fonte luminosa, o aquário, as torres, e faço diagonais que não acabam. Ponho os óculos escuros; uma imperial, fumos, cadernos, civil, química, civil, química, civil. Café.
O 22 passou agora. Merda. Meia-hora.)
Depois, concluo que andamos todos à deriva e, talvez, eu seja só a mais descarada.
Juro, amanhã acordo cedo. Despertador às 8.00, mas para quê? Não como. Nunca respiro. Durmo, durmo, durmo, durmo.
Numa anestesia que me deixa mais feliz.
7.10.05
Conheci uma menina (VIII)
A Vera veio ter comigo. Via-se o Tejo e um homem grande, de ferro. Encontrou-me perdida nas suposições de que jamais estaria sozinha. Isto não é, de todo, a minha casa.
Mas quando for crescida vou ser Engenheira Mecânica, e isso é bom. Acredito.
Um dia vou ver a lua mais de perto e a Vera mais de longe. Não falta muito.
Falta o tempo da vontade, e o deixar de querer, minha querida Vera, que estejas sempre comigo.
Mas quando for crescida vou ser Engenheira Mecânica, e isso é bom. Acredito.
Um dia vou ver a lua mais de perto e a Vera mais de longe. Não falta muito.
Falta o tempo da vontade, e o deixar de querer, minha querida Vera, que estejas sempre comigo.
20.9.05
17.9.05
16.9.05
15.9.05
9.9.05
Conheci uma menina (VII)
E desci as escadas do 2º para o 1º andar carregada de bagagem: malas, sacos, malinhas, mochilas.
Estava tudo tão pesado. Demasiado pesadas, as lágrimas.
Sentada no meu sofá estava a Vera. "Já não te consigo ouvir mais, minha pequena", pensei.
Tinha um vestido branco, o cabelo penteado e os olhos a confudir-se com o verde do sofá. Sentei-me perto dela, com a expressão de quem não tem paciência para birras.
-Vera, eu tenho de ir. O que é que querias?
-Ir contigo.
-Vera, vê se me ouves. Por mais minha que te sinta, não te posso levar assim. Não está bem.
Levantou-se, poderosa. Dona de si. Ficou parada, à espera que lhe pedisse desculpa ou que alguma vez reconsiderasse levá-la comigo. Não te levo. Nunca me dás o braço a torcer mas eu sou mais orgulhosa que tu. São mais anos de orgulho. Deixa-te estar. Um dia venho ter contigo de novo. Para a semana..
Saio porta fora e a Vera pega na mochila cor-de-rosa. Dás-me a mão e seguimos viagem juntas, como sempre.
Estava tudo tão pesado. Demasiado pesadas, as lágrimas.
Sentada no meu sofá estava a Vera. "Já não te consigo ouvir mais, minha pequena", pensei.
Tinha um vestido branco, o cabelo penteado e os olhos a confudir-se com o verde do sofá. Sentei-me perto dela, com a expressão de quem não tem paciência para birras.
-Vera, eu tenho de ir. O que é que querias?
-Ir contigo.
-Vera, vê se me ouves. Por mais minha que te sinta, não te posso levar assim. Não está bem.
Levantou-se, poderosa. Dona de si. Ficou parada, à espera que lhe pedisse desculpa ou que alguma vez reconsiderasse levá-la comigo. Não te levo. Nunca me dás o braço a torcer mas eu sou mais orgulhosa que tu. São mais anos de orgulho. Deixa-te estar. Um dia venho ter contigo de novo. Para a semana..
Saio porta fora e a Vera pega na mochila cor-de-rosa. Dás-me a mão e seguimos viagem juntas, como sempre.
5.9.05
2.9.05
31.8.05
29.8.05
Itinerante.
Arrepiante. Impressionante. Distante.
Adiante.
Constante. Inconstante. Sufocante. Brilhante.
Gigante. Sussurante. Rastejante. Cintilante. Importante. Irritante.
Amante.
Ignorante. Dante. Farsante.
Borbulhante. Frustrante.
O mastigar das palavras tira-lhes o sentido.
Faz de conta que escrevi alguma coisa inteligente.
Adiante.
Constante. Inconstante. Sufocante. Brilhante.
Gigante. Sussurante. Rastejante. Cintilante. Importante. Irritante.
Amante.
Ignorante. Dante. Farsante.
Borbulhante. Frustrante.
O mastigar das palavras tira-lhes o sentido.
Faz de conta que escrevi alguma coisa inteligente.
28.8.05
8.8.05
Conheci uma menina (VI)
..E depois de tudo o que rimos, deixo-me adormecer ao teu lado. Aninhas-te na minha curva da cintura e passo-te os dedos no cabelo, a pentear-te.
A Vera passou aqui em casa hoje cedo. Vinha tão feliz que não tive coragem nem descaramento de lhe falar sobre o que sentia. Até porque não entenderia. De qualquer forma, seria uma boa ouvinte. Sabe ouvir, aquela miúda. Abre os olhos verdes, fixa-os nos meus, e fica assim. Fala só de vez em quando, quando lhe peço opinião.
Disse-me que era maluca por gelatina de morango e fiz-lhe a vontade. Saímos de casa de mãos dadas. Ela, pequenina, de vestido branco, com uns óculos de sol amarelos. Eu, maior, perdida de mim e achada nela. Fomos de mão dada ao super-mercado comprar gelatina. A Verinha quis voltar para casa logo que pagámos a nossa sobremesa; e atravessámos a rua a correr. Como duas doidas. Contou-me que vira o Filipe na praia e que estiveram a brincar juntos. Estava radiante, os olhos quase a saltar das órbitas. Fiquei deliciada.
Preparámos tudo e quando a Vera decidiu que a gelatina devia ser virada como as panquecas, escancarámos o riso ao pensar em quantos pedaços a nossa sobremesa estaria dividida por toda a cozinha.
Tomámos banho de mangueira na varanda das traseiras, jogámos na minha velhinha Mega Drive e ficámos a cantarolar a música que acompanhava o Sonic.
Mostrei-lhe uns cd's. Feist, Jamie Cullum, John Lennon. Morreu de amores pela Imagine, e adormecemos a cantar Imagine all the people..living for today..
A voz, não é de certeza o seu ponto mais forte. Desafina, a minha pequenina.
Mas nem o John Lennon alguma vez cantou tão bem.
A Vera passou aqui em casa hoje cedo. Vinha tão feliz que não tive coragem nem descaramento de lhe falar sobre o que sentia. Até porque não entenderia. De qualquer forma, seria uma boa ouvinte. Sabe ouvir, aquela miúda. Abre os olhos verdes, fixa-os nos meus, e fica assim. Fala só de vez em quando, quando lhe peço opinião.
Disse-me que era maluca por gelatina de morango e fiz-lhe a vontade. Saímos de casa de mãos dadas. Ela, pequenina, de vestido branco, com uns óculos de sol amarelos. Eu, maior, perdida de mim e achada nela. Fomos de mão dada ao super-mercado comprar gelatina. A Verinha quis voltar para casa logo que pagámos a nossa sobremesa; e atravessámos a rua a correr. Como duas doidas. Contou-me que vira o Filipe na praia e que estiveram a brincar juntos. Estava radiante, os olhos quase a saltar das órbitas. Fiquei deliciada.
Preparámos tudo e quando a Vera decidiu que a gelatina devia ser virada como as panquecas, escancarámos o riso ao pensar em quantos pedaços a nossa sobremesa estaria dividida por toda a cozinha.
Tomámos banho de mangueira na varanda das traseiras, jogámos na minha velhinha Mega Drive e ficámos a cantarolar a música que acompanhava o Sonic.
Mostrei-lhe uns cd's. Feist, Jamie Cullum, John Lennon. Morreu de amores pela Imagine, e adormecemos a cantar Imagine all the people..living for today..
A voz, não é de certeza o seu ponto mais forte. Desafina, a minha pequenina.
Mas nem o John Lennon alguma vez cantou tão bem.
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